solitude (e a transformação)

   Estive sentada tomando a quarta ou quinta xícara de café do dia, lendo Jane Eyre como quem se alimenta das palavras. Nunca me cansarei de exaltar a literatura das três irmãs Brontë. O que, particularmente, sempre foi uma das coisas mais chamativas nas narrativas delas, além das fortes personagens femininas, é a própria descrição do clima. Frio, chuvoso, os morros dos ventos que uivam, a neve… talvez seja esse meu paraíso literário, pois nada poderia captar tanto minha atenção quanto a descrição de um clima como esses.

   Percebi que sublinhei inúmeras frases que falavam da solidão como algo bom. Em algum momento Jane fala sobre estar isolada, mas sem sentir-se solitária por tal coisa. Marquei essa frase com lápis duas vezes.

   Estar sozinha sempre foi um refúgio para mim. Um lugar onde eu poderia ser quem era sem medo de julgamentos ou pressões. Eu pensava que se fosse deixada sozinha pelo resto de minha vida talvez fosse finalmente feliz. Presa em uma cabana no meio de alguma floresta, cercada de livros, cadernos e canetas. Um estoque estonteante de café. Estar sozinha sempre foi minha definição de paz. A solitude sempre me foi agradável. Em dias cinzas, então, mais ainda.

   Já não permaneço com esse sonho. Estar sozinha já não é mais uma vontade, mas apenas um estado ao qual poderei ser submetida sem vontade. Não quero estar mais dentro de uma cabana, sozinha. No entanto, também não quero outras pessoas além de uma em especial para me fazer companhia. Alguém com quem eu sei que poderei ser quem sou e ficar algumas horas em completo silêncio sem ser julgada ou sentir alguma pressão. Exatamente como se estivesse sozinha, mas não estaria. Pois ela estaria ela.

   As vezes fico preocupada em pensar que aquele antigo sonho perdeu suas forças. Era mais fácil aceitar a solidão sem sentir dor nenhuma. Hoje ela é algo para o qual olho com medo, algo que não desejo. Só desejo estar sozinha se dentro de poucas horas poderei não estar mais. Se então poderei estar em silêncio com ela, ou até mesmo conversar. Conversar já não é uma perspectiva tão cansativa como era antes. Parece algo bom. Eu gostaria de conversar com ela agora, sentada em um sofá, tomando a quinta xícara de café do dia.

   Quando você é alguém naturalmente solitário, naturalmente propenso a decidir pelo isolamento, é muito fácil saber se seus sentimentos por alguém são reais: você trocaria seus momentos de auto-exílio pela companhia daquele determinado ser humano. Você concordaria em conversar. Você até, de certa forma, preferiria. Pois estar sozinho não é mais tão incrível como era antes.

   É meia-noite, minha cabeça está fervilhando de pensamentos, e eu estou com medo novamente. Espero que algum dia essa sensação suma, desapareça da minha vista. No momento, sei que essa solidão que estou tendo é boa. Da madrugada, da escrita – que sempre é um ato de isolamento – de estar olhando para o nada e podendo traçar definições em meus pensamentos. Mas ainda assim, gostaria de estar observando-a dormir. Envolver meus braços pelo seu corpo. Ler enquanto ela dorme. Escrever enquanto ela dorme. Tomar uma xícara de café sabendo que ela está ali ao lado, que pode acordar a qualquer momento, dar olá, iniciar uma conversa sonolenta sobre o sonho que teve. E eu daria risadas, leria o que estava escrevendo. Deitaria junto a ela.

   Nesse momento, apenas desejo dormir. Esquecer todos os meus medos, sonhar com essas cenas. Ou talvez eu apenas deva voltar a ler Jane Eyre e esquecer de tudo que escrevi.

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