Vácuo

   Caminhei pela universidade durante algum tempo, a fim de tentar entender o que estava acontecendo comigo. Peguei um vento que não deveria pegar, pois estou ficando gripada. Sinto alguns calafrios, talvez daqui a pouco fique com febre. Tomei um banho e pensei que, seja lá o que fosse, deveria escrever sobre. Coloquei o blusão dela, aquele que lavei e deveria entregar, mas precisava de algo que fosse familiar. Algo que me fizesse sentir perto de casa.

   É como se tudo estivesse bagunçado. Como se estivesse andando rápido demais, correndo e, mesmo ficando sem forças, a cada passo estivesse indo mais depressa. Não lembro da última vez que parei para pensar. Para ajeitar algumas coisas. Esfreguei as paredes do quarto, passei pano no chão, mas não são essas coisas que preciso ajeitar. Não é o meu armário. Não é a minha agenda. É o que habita dentro de mim que precisa ser organizado. Preciso diminuir a velocidade dos meus pensamentos. E isso não significa dormir, como tenho feito. Significa parar, respirar, refletir.

   Sinto que tudo está longe demais. Por isso insisti em ir para a casa dos meus pais, pois precisava sentir que algo ainda estava nas minhas mãos. Por isso estou usando esse blusão, porque preciso sentir minha pele contra algo que me lembre de quem amo. Por isso bebo xícaras e xícaras de café, mesmo que já não aguente mais, porque preciso estar próxima de algo que me lembre de mim mesma. Eu me pergunto por que todos estão tão distantes, mas cheguei a conclusão de que não são eles. Sou eu.

   É como não estar aqui com mente e alma. Como se estivesse fora daqui, em outro lugar, mas meu corpo continuasse cumprindo com suas responsabilidades. Essa sensação está me matando aos poucos, me enfraquecendo dia após dia. E eu não sei como voltar. Estou presa em algum tipo de realidade alternativa. E sinto falta de tudo, absolutamente tudo, desde o abraço da minha pessoa, minha gata, a horta de trás de casa, até de mim mesma. Eu vejo tudo isso se afastando e não compreendo que essas coisas estão onde sempre estiveram, apenas eu não estou.

   Em determinados momentos penso como seria bater a cabeça tão brutalmente em algo que finalmente sentiria de novo. Penso que se ela me abraçasse forte até que meus ossos doessem eu sentiria uma faísca de vida reacendendo. E eu me pergunto porque, no final das contas, é dela quem lembro. Não como se não amasse as outras coisas tanto quanto, não como se nada mais importasse. Mas como se fosse a única coisa que ainda brilhasse tão forte que acaba por iluminar o caminho. A única coisa que vejo quando meus olhos estão se fechando e estou prestes a cair no sono. Esse blusão não é o suficiente, mas é algo. É uma lembrança. Tenho medo de devolvê-lo. Nenhuma de nós está forte o suficiente para salvar uma a outra. Nenhuma de nós está forte o suficiente para salvar a si mesma. Mas ela é o fato de ela existir em si que se torna um alívio.

   Eu não sei como vou organizar isso tudo. Estou doente em cada pedaço de mim. Meu corpo está desabando junto comigo. Mas eu ainda lembro de como a voz dela soa. De como o toque das mãos dela fazem cada célula correr por meu corpo. Eu não sei onde estou, não sei como vim parar aqui e não sei como sair.

   Mas ela está ali, em algum lugar. Sempre, e tanto. É a única coisa que estou vendo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s